A Individuação e a Arte No Ator
A idéia de buscar esses estudos e práticas de pesquisa vieram de minhas próprias vivências como ator (passando por diversos profissionais e métodos de preparação e formação de atores, e percebendo meu próprio processo; analisando, dissecando e intersectando as teorias e os conceitos dos principais teatrólogos, atores e diretores), como psiquiatra e psicoterapeuta (estudando, pensando e praticando a observação e a compreensão dos comportamentos humanos), como diretor e professor (observando o processo de criação, de aprendizagem e o comportamento cênico de artistas), como cidadão (vivendo nos dias de hoje, percebendo as urgências, as carências, os bloqueios, as frustrações e as necessidades das pessoas à minha volta, e as minhas próprias) e como espectador (observando o que me causava determinada peça, determinado filme, determinado show; o que me fazia apreciar ou não, voltar ou não, recomendar ou não, lembrar ou não, assimilar ou não determinada obra de arte).
Nos tempos da razão e da tecnologia em que vivemos, nos quais o contato real com as outras pessoas tornou-se raridade, quando já quase não existem encontros, quando a vida, momento a momento, passa despercebida, criam-se máquinas demais e humanos de menos.
A superpopulação mundial, a massificação social, a solidão, a falta de espelhos nos iguais, o enfraquecimento da sensibilidade, a obsessão pela felicidade e pela normalidade, a busca da neutralidade, a insegurança, a facilitação do alcance e do descarte dos objetos de desejo, a super-informação, a distorção da verdade e dos valores, os egoísmos e egocentrismos – tudo isso podem ser ou não justificativas plausíveis para um fato indiscutível: acabamos, cada vez mais, vestindo uma grossa camada de máscaras para que possamos sobreviver ao caos social em que vivemos. Deste modo, fica cada vez mais difícil o contato real com nós mesmos, com nossa essência, com nossas raízes e sonhos; o que dizer então do contato com os outros e com o meio?
Se a criação artística é filha do próprio artista, de suas verdades pessoais, de suas reações aos contatos com o mundo que o rodeia, que o atinge e o sensibiliza, como criar algo realmente significativo e autêntico estando alheio a si mesmo e a este mundo?
Como entrar em contato com o meio externo se não enxergamos mais, se não encostamos, não cheiramos, não degustamos, não ouvimos e não percebemos este meio, se temos em nossa frente uma camada mascarada que nos impede de, realmente, viver?
Como nos expressarmos artisticamente se não agimos? Se não sabemos o que sentimos, se não nos permitimos acessar o que somos, se pensamos demais e fazemos de menos?
Essas perguntas são recorrentes e comuns a todos os métodos de preparação de atores que estudei e vivenciei. Variam os nomes, os conceitos, mas a essência é a mesma: a busca pela vida pulsante em cena, pela verdade, pela significância. Qualquer semelhança com conceitos de livros de auto-ajuda não é mera coincidência. Se o artista, ele mesmo, é sua matéria prima e seu instrumento de trabalho, e sendo impossível dissociar o artista de sua própria pessoa, quanto melhor soubermos viver, ou seja, quanto mais disponíveis, receptivos e responsivos formos à vida, e quanto mais nos conhecermos em profundidade (nossos anseios e desejos reais e primários, em relação à nossa existência), mais vivas e contagiantes serão nossas criações.
Muitos desses métodos, porém, caem em contradição em sua própria proposta ou, quando não, são muito mal interpretados por aqueles que os estudam. Uma metodologia pressupõe uma especificação de ações, uma formatação fechada, imutável; uma fórmula. Mas quando se trata da vida, não pode haver fórmulas. Por isso não gosto da palavra método para este projeto. Assim, frente à peculiaridade de cada indivíduo e à busca de um processo humanizado, procuro a melhor compreensão e empatia possíveis com cada artista para depois saber o que pode ou não funcionar em seu processo de preparação. Como abordá-lo com singularidade? Como ajudá-lo a se livrar de seus entraves e barreiras pessoais, para que possa se expressar em plenitude? Que técnicas que temos disponíveis podem nos ajudar, a mim e a ele, neste trabalho, e por quê esta técnica e não outra? De onde surgiu esta técnica? Em que contexto histórico e social? Quem a propôs pela primeira vez? Quem é ou era essa pessoa? Qual a visão de arte e de vida que esta pessoa tinha, ou tem? No que ela se baseou para chegar a essas conclusões? Ainda é uma técnica viva? É uma técnica presente na cultura de quem a irá vivenciar? E mais importante: essa técnica é natural e orgânica para esta pessoa? Já está em seu DNA?
Desta forma, em primeiro lugar vem o conhecimento da personalidade do artista com quem irei trabalhar. De sua pessoa física, não jurídica! De sua história pessoal! Dos seus pontos de vista! De sua bagagem, de suas crenças. De seus pré-conceitos. Da fase de vida pela qual está passando no momento específico do trabalho. De onde ele veio? Onde ele está hoje? Onde queremos chegar? São o tripé de questões de onde partimos. É a preparação do solo para que este possa estar fértil para o momento em que vier a semente. A semente é a técnica específica de sua arte. Esta técnica sim pode ser metódica, pré-formulada. E deste encontro de solo e semente, de vida e técnica, nascerá uma verdadeira e autêntica obra de arte.
O conceito junguiano de Individuação é exatamente isso. Um caminho de lapidação e de diferenciação que percorremos ao longo de nossa jornada e que nos torna seres humanos singulares, únicos. É como acontece quando somos gerados. No início, somos um conjunto de células iguais, que vão se multiplicando até começarem a se diferenciar em tecidos, órgãos e sistemas peculiares, cada qual com suas funções e seus papéis para um perfeito funcionamento da máquina que é nosso corpo.
O problema é que nos tempos que vivemos hoje, torna-se cada vez mais difícil este processo e as tendências vão em direção contrária a isso. Buscamos muitas respostas, quando deveríamos vibrar mais com as perguntas! Buscamos as fórmulas perfeitas e nos frustramos; ou nos enganamos.
Não somos estáticos. Nós não somos algo. Nós estamos algo!
E surge a questão: mas isso é quase uma terapia? Não! Não quase. Isso é uma terapia se encararmos as terapias, simplesmente, como meios de possibilitar a expressão das verdades do indivíduo, seu contato com sua essência, a retirada de suas máscaras para que ele possa enxergar sua realidade e para que ele possa olhar para suas máscaras e aprender a usá-las, ou seja, como e quando usá-las, quando elas são necessárias e quando não, para que o convívio social e com ele mesmo sejam mais saudáveis e autênticos.
Neste trabalho específico, porém, a proposta é utilizar essas descobertas e essas revelações artisticamente, direcionando essa energia para um processo saudável de criação ao invés de destruição ou da simples reflexão. Muitos cursos e métodos que encontramos vida afora, ou não lidam com essas questões (e encaram o artista como maquinaria) ou, quando lidam, não dão suporte suficiente para que o artista lide com essas descobertas (afloram os sentimentos, as sensações e os complexos, e o artista vai para casa com eles, sem saber o que fazer). Isso pode ser muito perigoso!
O foco da pesquisa é artístico, não terapêutico. Mas nesta proposta é inevitável que aja terapeuticamente, neste sentido de terapia que coloquei, um modo de devolver a vida à própria vida.
Muitas correntes de psicoterapia tendem a tentar ajustar o indivíduo a padrões e moldes sociais, ao invés de estimular a expressão de sua individualidade. É o mesmo que acontece com os métodos artísticos. Definitivamente, não é esta a proposta.
A arte do ator é ancestral. Primitivamente, surge da necessidade de passar histórias e ensinamentos de geração a geração. Da necessidade de se obter uma comunicação mais potente, mais vibrante e contagiante para que esses fatos não fossem esquecidos e para que passassem a ter significância e valor àqueles que o apreendiam. Voltemos, então, às origens!
A capacidade de expressão e de criação nos coloca frente a frente com nós mesmo ao encararmos a criatura. E se a obra criada for verdadeiramente dotada de vida e pulsão, certamente servirá de espelho e de estímulo à vida daqueles que a vivenciarem.
Para criarmos algo, precisamos estar vivos! É simples assim. E complexo assim.
Eduardo de Santhiago

