RELEASE - Espetáculo DÉSIR
TEMÁTICA
A problemática do desejo humano é tema exaustivamente explorado em diversas obras da literatura, da filosofia, da psicologia e da própria dramaturgia, mas continua sendo objeto de reflexão e de deflagração de catarses em espectadores mundo afora. Isso se dá pelo fato de que o desejo está embutido em todas as manifestação da vida humana e em quaisquer relações do homem com o mundo que o cerca. Esta premissa foi o primeiro ponto de dificuldade com o qual nos deparamos durante o processo de composição do espetáculo. Como falar de desejo simplesmente, quando isso significa falar da própria complexidade do fenômeno da vida humana? Assim, depois de exaustivos processos de estudos, leituras, exercícios de improvisação e somente após a realização da primeira temporada do trabalho em desenvolvimento no ano de 2007, finalmente consolida-se o espetáculo Désir, primeiro trabalho oficial da EstÁ Cia.
ARGUMENTAÇÃO E DRAMATURGIA
Désir, espetáculo do dramaturgo, ator e diretor Eduardo de Santhiago, que possui também formação médica como psiquiatra, aborda a temática do desejo sob três diferentes prismas: o conceito de dicionário da palavra, os conceitos lacanianos, e o conceito de “desejos de ordem superior” (desejos em relação aos desejos) do filósofo americano Harry Frankfurt.
De acordo com esses prismas, o desejo deixa de existir no exato momento em que o objeto deste desejo é conquistado. Assim, o homem se obriga a criar, imediatamente, novos buracos a serem preenchidos, novos anseios e inquietações, que o mantêm vivo e ativo. Assim, a pergunta que lançamos é: e depois? E agora? O que fazer com essa conquista? No mundo contemporâneo, onde o acesso aos bens de consumo está cada vez mais facilitado, onde os relacionamentos estão cada vez mais descartáveis, onde somos bombardeados pela obrigatoriedade de estarmos constantemente desejando algo, o homem encontra-se cada vez mais perdido, sente-se cada dia mais vazio e insatisfeito, torna-se a cada momento mais deprimido, ansioso, e distancia-se dos verdadeiros valores, aqueles mais significativos para a sua trajetória de vida.
A dramaturgia foi composta em estética poética e simbólica, preocupada com aspectos rítmicos e com a musicalidade das palavras a cada cena. São freqüentes as ambigüidades, as múltiplas possibilidades interpretativas e a ausência de rubricas ou de pontuações, que permitem um novo olhar e novos dizeres de um mesmo texto a cada espetáculo. O ritmo das falas é essencialmente dinâmico, composto por frases curtas que muitas vezes lembram versos soltos, mas que ao fim de cada diálogo se configuram em poemas extremamente significativos. Assim, o texto pode ser considerado essencial, em vista da ausência de trechos de ligação ou de significado frouxo. Tudo o que é dito precisa ser dito; tudo o que precisa ser dito, nem sempre é dito, podendo ficar nas entrelinhas.
ENCENAÇÃO
Em conversa aparentemente despretensiosa com a platéia no início da peça, o casal de atores, que recebe os espectadores um a um, levanta uma série de conceitos teóricos e cotidianos sobre a temática do desejo, propiciando assim uma empatia imediata do público com o tema.
Desta conversa, os atores partem para um prólogo como o último diálogo do terceiro encontro de um casal - o ponto de virada, a novidade que sutilmente deixa de ser nova, a zona límbica entre a rarefação e a solidificação dos laços. Este prólogo é depois dividido em sete cenas, representantes simbólicas dos diversos movimentos de desejo contidos neste diálogo, encenadas em ordem que vai de acordo com o desejo do inconsciente coletivo do público de cada sessão. Desta forma, cada espetáculo torna-se explicitamente inédito, mantendo o caráter da novidade, tanto aos espectadores quanto aos atores, caráter este que dialoga diretamente com a própria problemática proposta pela dramaturgia da peça.
Em cena, Eduardo de Santhiago e Juliana Hilal dão corpo e voz aos personagens ELE e ELA, cada um representando dois papéis: aquele que deseja e aquele que é objeto de desejo do outro.
A encenação, ambientada em um quarto-cela, abusa do universo cultural francês, escolhido pelo potencial sedutor que este apresenta em nosso inconsciente coletivo. A trilha sonora, que traz nomes como Jacques Brel e Vive la Fête, assim como outros aspectos da cultura francesa como o próprio idioma e a gastronomia, marcam forte presença na proposta cênica.
Interpretação e treinamento
Para a construção de cena, os atores foram buscar referências em imagens de arte erótica orientais, como o Kama Sutra, e ocidentais, como obras de Rodin; em rituais de acasalamento de animais e em danças de caráter sedutor, desde o tribal lundu até o tango argentino e a mítica dança dos sete véus. A estilística interpretativa, que ora se distancia em caráter épico e mais próximo a um teatro físico, e ora se torna mais naturalista, conduz o público, a todo o momento, para dentro e para fora da cena, possibilitando tanto a identificação quanto a reflexão sobre o assunto. Assim, a peça apresenta influências explícitas de Bertold Brecht e Rudolph Laban, mas também dialoga com as escolas interpretativas de Jerzy Grotowskty, Sanford Meisner e Erik Morris.
Figurinos
Emerson Mosca desenvolveu um figurino que tem por base roupas íntimas, em tecido que transita entre o prata frio e o vermelho. Os detalhes brutos em metal causam um desconforto que segue todos os demais elementos da encenação. As peças de roupa dos atores combinam opacidade e transparência, de acordo com as intenções pretendidas cena-a-cena.
Cenografia
O cenário com elementos de jaula, desenvolvido pelo próprio encenador e autor, propicia aos personagens uma relação de exibicionismo-voyerismo com a platéia. O quarto, que conta apenas com o essencial, é preenchido por objetos cinzas, aramados e tortuosos, contrastando com o calor de tapetes vermelhos no piso.
Desenho de Luz
Assim como a cenografia e os figurinos, o desenho de luz de Frederico Foroni e Eduardo de Santhiago também transita entre momentos de suavidade e outros de expressionismo, operado de forma bastante rítmica em completa sintonia com o mis en scène proposto.
Sonoplastia e Trilha
Além do compositor Jacques Brel e dos grupos franceses Vive la Fête e Noir Désir, a trilha sonora conta com a gravação original da Cantata no. 8 de Bach na voz de Caroline Blumer e com a sonoplastia produzida por Fernando Zuben, mantendo sempre o contraste entre a agressividade e a leveza nos sons.
Carreira do espetáculo
Désir estreou no dia 14 de dezembro de 2007, na Sala Carlos Gomes – Centro de Convivência Cultural, em Campinas. No primeiro semestre de 2008, realizou temporada no Espaço dos Satyros 1, Praça Roosevelt, São Paulo. Para esta temporada, os atores contaram com a preparação de elenco do diretor e cineasta Frederico Foroni (preparador de elenco do longa-metragem NOME PRÓPRIO, de Murilo Salles). Nos meses de maio e junho de 2009, realizou nova temporada em São Paulo, no VIGA Espaço Cênico, com enorme aceitação de público. Em 2010, participou do FESTIVAL DE CURITIBA, no Teatro Mini-Guaíra, e se apresentou no Palacete Levy, em Limeira/SP, como parte das OFICINAS CULTURAIS CARLOS GOMES.


